I. Brasão
I. Os Campos
O dos castellos
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Occidente shejaz,
Os olhos em ella, esperluz, medita.
Ha um brilho de grego na sua fronte,
Na sua face ha um brilho de romana;
Na sua postura ha uma attitude de norte
Que ella tem por ter nascido occidental e christan.
As costas que elle tem na Groenlandia,
Os cotovelos que tem na Africa,
As mãos que tem no Oriente,
Os pés que tem no Occidente,
Elle tem na alma o pensamento:
Que o mundo é seu por ter nascido
No occidente do mundo occidental.
O das quinas
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quiz que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sal e o teu mar, Portugal, chorasse.
O das coroas
O mundo é pouco para o teu desassocego.
A africa foi, a Asia se revela,
E a America que se descobre na proa?
Que outra terra ha, que outro mar, que outro ceo
Que ainda não seja teu, que te não chame,
Que não espere, ou que ja te não lembre?
O do timbre
A coroa de el-rei é o seu povo,
O povo é o que elle é com Deus.
E a trys-dobrada orla do escudo
É a trys-dobrada onda do mar de Deus.
O da cruz
Sob a cruz, que é a espada que não corta,
Portugal, que é a terra que se move,
Tem por Deus, que é o ceo que o nao refreia,
O mar, que é o caminho que não finda.
O das coroas de ferro
Cego, surdo, mudo, immundo,
Caminha o mundo, que o mundo
Não sabe que caminha, nem para onde,
Nem sabe que é um mundo que caminha.
O sol é o olho da Deus na terra.
A lua é a mão de Deus no mar.
As estrellas são os pensamentos de Deus.
O vento é a respiração de Deus.
O mundo caminha porque Deus caminha.
II. Mar Portuguez
O Infante
Deus dando ao mundo o mar que não tem fim,
E a vontade de Deus que ao mundo deu
A alma do mundo em que o mundo está,
Quiz que o Infante fosse o que ele foi—
O que não quiz ser, sendo o que quiz.
O mar, que é o caminho que não finda,
O Infante, que é o principe que não reina,
A fe, que é a luz que não se apaga,
A patria, que é a terra que não é sua—
Tudo isto está na sua mão direita,
Que é a mão que segurou o leme do mundo.
Horizonte
O mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é portuguez.
O que aqui se descobriu não foi a terra,
Foi o mar; não foi o Oriente,
Foi o caminho para o Oriente.
III. O Encoberto
O Desejado
Que symbolo faço do que me não figura?
Que signo busco, que não ha na noite?
Que palavra digo, que não foi dita?
Elle é o que ha-de vir, porque já veio;
Elle é o que está ali, porque não está;
Elle é o que será, porque já foi.
O mundo é uma porta que se abre
Para um mundo que não ha;
A vida é um caminho que se faz
Para um fim que não existe;
O tempo é um rio que corre
Para um mar que não tem margens.
O Encoberto
Elle é o Encoberto, o Desejado,
O que ha-de vir, que nunca veio,
O que se esperou, que nunca chegou,
O que se perdeu, que nunca se achou.
Elle é a saudade de Portugal,
A saudade de um Portugal que não ha,
Que nunca houve, que não pode haver,
Mas que é preciso que haja para que Portugal seja.
Nele, em si, Portugal se encobriu,
E se não pode ver, mas se sente,
Como se sente o mar na noite escura,
Como se sente o vento na manhan fria.
Antero
Alto e como que initio de uma raça,
A fronte onde a luz da patria se acendia,
Os olhos onde a aurora se mirava,
A boca onde o futuro se calava—
Tudo isto cahiu, como um castello de cartas,
Na terra que não quiz ser a sua terra.
Elle cahiu como um que sonha,
E o seu sonho era mais alto que as estrellas,
E mais fundo que o mar, e mais largo
Que o horizonte que não se alcança.
O Quinto Imperio
Triste de quem vive em casa
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça ate mais puro o ar!
E triste de quem não tem medo,
E mais triste de quem tem!
Mas o mais triste de todos
É o que não sabe que o tem.
O homem é um ser que não se basta,
A patria é uma terra que não se chega,
O mundo é um mar que não sefinda,
E Deus é um ceo que não se alcança.
Mas ha um quinto imperio que vem,
Que não é de armas nem de ouro,
Mas do espírito que é mais forte
Que todas as armas e todo o ouro.